Birmingham Royal Balllet em sua montagem para a obra "Variações Enigma" de Edward Elgar

Após um longo período de hibernação, trago um grande presente de Natal atrasado para minhas leitoras. Trata-se de uma entrevista com o shoemaster do Birmingham Royal Ballet, Michael Clifford, concedida exclusivamente para o Ponta Perfeita.

Não sabe o que é um shoemaster? É um posto de trabalho que praticamente não existe nas companhias brasileiras. No máximo, temos encarregados de guarda-roupa, costureiras ou camareiras. Mas Mr Clifford é responsável por todos os calçados utilizados pelo BRB, inclusive as sapatilhas de ponta da cada uma das bailarinas. Um trabalho árduo e que exige muito mais do que habilidade manual e senso prático.

Segundo a descrição da companhia “Michael Clifford é shoemaster no BRB há mais de 15 anos. Ballet para Michael significa a medida de pés, pernas e calçados, além de alterações e reparos constantes e urgentes”. Assim como qualquer outro membro da companhia, ele está sempre envolvido com as performances da companhia e dentre suas responsabilidades estão:

1. Conhecer cada novo integrante do BRB, suas necessidades e manter arquivos das medidas dos pés, tornozelos e pernas de cada bailarino

2. Manter contato com os principais fabricantes de sapatilhas do mundo. Todas as medidas registradas são enviadas para o fabricante de preferência da bailarina.

3. Fazer todas as adequações exigidas para as produções. Para produções que exijam sapatilhas e calçados coloridos, por exemplo, todos eles passam pelo Shoe Spray Room. Foi o caso do ballet A Sagração da Primavera para o qual mais de 200 sapatilhas foram pintadas à mão.

4. Supervisionar e organizar as sapatilhas para ensaios e temporadas. Ou seja, Michael deve certificar-se de que todas as sapatilhas de pontas e demais calçados chegam de forma segura ao teatro onde o BRB irá se apresentar, bem como resolver qualquer problema que os bailarinos tiverem

Um luxo, não? Quer saber mais? Então leia a entrevista especialmente encomendada pra vocês!

 

PP: Quantos pares de sapatilhas os bailarinos do Birmingham Royal Ballet normalmente usam?

MC: Trabalhamos sempre com um calendário mensal. No caso das sapatilhas de ponta, as bailarinas do corpo de baile ganham cada uma 10 pares de sapatilhas por mês. As solistas ganham 12 pares e as primeiras solistas ganham 15. Para as primeiras bailarinas, não há limite específico. Se uma bailarina do corpo de baile estiver fazendo mais solos, permito que ganhe alguns pares a mais, se necessário. Para solistas e primeiras solistas que estejam interpretando papéis principais, o mesmo se aplica. Para o caso dos meninos, cada um ganha 4 pares de sapatilhas de meia ponta por mês.

 

PP: Qual é o poder de decisão de cada bailarina? Elas podem escolher uma marca específica ou realizar suas próprias alterações? Se sim, quais são as marcas mais solicitadas e quais são as principais alterações feitas?

MC: As bailarinas têm várias opções de escolha, porém não são ilimitadas – o que obviamente não se aplica às primeiras bailarinas! No caso das alterações, há basicamente dois tipos: as feitas sob medida e as padronizadas. Os fabricantes que fazem alterações sob medida são a Freed of London, a Dance Workshop (Bob Martin), a Bloch (possuem uma linha de produção bem enxuta) e a Ushi Nagar. Já para as alterações padronizadas (opções que podem ser encontradas na prateleira das lojas) são feitas pela Bloch, Freed of London e Grishko. A maior parte das garotas prefere a Freed, pois eles oferecem um serviço especial de medidas personalizadas, o que inclui alterações da gáspea (com corte em V ou arredondado) e com altura específica para cada bailarina. As medidas das laterais e do calcanhar também podem ser personalizadas. Outros dois fabricantes que oferecem o mesmo serviço é a Dance Workshop e a Ushi Nagar, todas localizadas em Londres. Estou sempre em contato com todos eles (muitas vezes diariamente!) para manter todos os pedidos no prazo. Eles também vêm a Birmingham a cada dois meses para avaliar as meninas e checar se houve alterações em suas medidas. Considero que somos uns sortudos e temos tudo feito aqui mesmo na Inglaterra, pois assim podemos mandar as sapatilhas para Londres e realizar qualquer alteração necessária rapidamente!

 

PP: Imagino que lidar com bailarinos e suas exigências não deve ser fácil. Então conte uma situação difícil que você tenha encarado do passado.
MC:
Lido com situações difíceis o tempo todo, então acho que já me acostumei! Mas a mais difícil normalmente é quando de repente entram novas bailarinas na companhia (estudantes ainda) e elas precisam de sapatilhas de ponta pra ontem! Também sou responsável pelos calçados cenográficos, tais como botas e sapatos, então trabalho juntamente com o designer discutindo o estilo do calçado exigido pela montagem, o desenho, o tipo de tecido (camurça, couro, etc), cores e vários outros detalhes considerando sempre as medidas de cada bailarino, pois todos eles são obtidos individualmente. Temos sorte de trabalhar no BRB, pois é uma companhia que reconhece o quão importante são os pés e as pernas dos bailarinos quando comparada com outras companhias de ballet. Nosso orçamento com calçados é muito alto e não gastamos somente com sapatilhas de ponta e meia-ponta. Por exemplo, para cada montagem diferente, é muito raro que os bailarinos [homens] compartilhem as mesmas botas e sapatos a menos que sejam para personagens de mise-en-scène. Caso contrário, um par de sapatos só é usado por outro membro da companhia quando o primeiro dono for embora.

 

PP: Nas companhias brasileiras, não existem shoemasters. Normalmente, há alguém responsável pelo guarda-roupas e cada bailarino é responsável por suas próprias sapatilhas. Quais são os segredos e as dicas que você pode compartilhar com as bailarinas brasileiras para ajudá-las a manter suas sapatilhas e a saúde de seus pés?
MC:
Eu não uso sapatilhas de ponta!! Então o único conselho que posso dar é que tenham uma quantidade suficiente de sapatilhas para utilizá-las em esquema de rodízio. O suor dos pés estraga a sapatilha e, se não conservadas adequadamente, elas estragam rápido. Então, deixe sempre as sapatilhas penduradas ao ar livre e faça o esquema do rodízio. Se utilizar ajustadores, dê preferência aos artigos feitos com material natural, como lã por exemplo. Evite ajustadores de materiais sintéticos. Aqui no BRB, sempre temos disponível o shellac [este é um termo sem equivalente no Português; é uma resina que, a meu ver, pode ser chamada de breu líquido] para as meninas. Elas quebram a sapatilha e depois aplicam o shellac abaixo da palmilha ou na caixa para endurecê-la novamente. Normalmente, as meninas fazem isso após cada performance ou ensaio e, como elas também recebem vários pares, sempre fazem o rodízio. Quando algumas meninas ainda são estudantes, elas costumam fazer uma costura em volta da plataforma da sapatilha [figura ao lado] para aumentar seu tempo de uso. Mas assim que ingressam na companhia e não precisam mais comprar suas próprias sapatilhas, elas deixam de fazer isso. Tenho também sempre ponteiras de camurça para colar na plataforma e estender o tempo de uso da sapatilha. Outra coisa que as meninas vêm fazendo recentemente é usar uma super cola [o termo em inglês é super glue e aqui conhecemos como SuperBonder, uma metonímia, pois esse é o nome da marca] na parte de dentro da sapatilha, o que deixa ela bastante dura… e também muito barulhenta no palco!

 

E então, meninas? O que acharam das novidades? Uma realidade completamente diferente da nossa, não?