698517_dancing

Muitas meninas começam a dançar ballet por indicação médica. Elas têm pés chatos. Esta era uma realidade bastante frequente nos anos 80. Hoje, não sei se tal indicação ainda existe. Mas quando comecei a dançar, a maior parte das coleguinhas de turma não estavam lá pela admiração ao ballet (meu caso), mas porque tinham pés chatos (também meu caso).

Como profissional de saúde, tenho lá minhas dúvidas sobre os benefícios do ballet clássico na correção do arco plantar baixo. Em todo caso, o problema começa quando a garotinha, que entrou no ballet por força do acaso e se apaixonou pela dança, inicia seu trabalho nas pontas. A professora de ballet e fisioterapeuta especialista em dança Lisa Howell diz que a pergunta mais comum é: “Tenho pés chatos. Posso usar sapatilha de ponta?”. A resposta pode ser sim ou não e tudo depende do tipo de pé chato que você tem.

Genericamente, há dois tipos de pé chato, também conhecido como pé plano. Algumas bailarinas (e pessoas em geral) possuem pés planos normais. É uma característica genética, segundo a qual o arco plantar é menos acentuado devido ao formato dos ossos dos pés. Não importa quão trabalhados sejam os pequenos músculos do pé, seu formato não muda significativamente com o passar dos anos. Se este é seu caso, o trabalho nas pontas é perfeitamente possível desde que todos os cuidados com o uso da sapatilha sejam tomados. Entretanto, pode ser que a bailarina não alcance uma aparência perfeita quando nas pontas, mas um trabalho seguro será perfeitamente possível. Nesta situação, os ligamentos devem ser fortes o bastante para estabilizar os pés e a bailarina deve ter boa consciência de sua musculatura.

Outros bailarinos terão pés com a aparência “chata” devido à presença de musculatura e ligamentos muito flexíveis e que não conferem o suporte necessário. Este tipo de pé pode ser trabalhado e ter uma excelente aparência nas pontas quando já estão bem fortes. Entretanto, a bailarina não deverá ser encorajada a subir nas pontas, caso a musculatura não esteja forte o bastante. Este tipo de pé apresenta um colo razoável na meia-ponta; mas nas pontas o colo aumenta, pois o peso do corpo empurra o calcanhar, fazendo o colo aumentar. Alongamentos específicos para este tipo de arco e controle da musculatura são essenciais para o início do trabalho nas pontas. Geralmente, bailarinas com tal mobilidade nos pés apresentam-na também em outros ligamentos e articulações do corpo. Elas podem desenvolver problemas nos joelhos e nas costas com o aumento da mobilidade e diminuição da estabilidade nessas articulações.

Especialistas acreditam que considerar apenas o formato do arco plantar não é adequado. O importante é atentar-se para a posição do calcanhar (osso calcâneo) e a posição relativa do osso seguinte (o talus). O tendão calcâneo deve permanecer alinhado, em sua vista posterior, mas apresentar uma ligeira curvatura ao nível do tornozelo. A bailarina deve ser capaz de manter uma boa posição do talus com os pés paralelos, em primeira posição, em fondu e durante sequencias de allegros e saltos, independente do formato de seus pés.

É essencial que cada bailarina aprenda os exercícios adequados para seu tipo de pé e esteja consciente das implicações do formato de seu pé ao progredir no trabalho de pontas.

Se você possui pé plano, isso não significa que não pode dançar ballet ou subir nas pontas. Tudo é permitido a todos desde que saibamos respeitar nossos limites. E lembre-se de que, se houver dor, o melhor é procurar um ortopedista, de preferência especializado em dança. Algumas das grandes bailarinas possuíam pés chatos, como é o caso de Alicia Markova e tantas outras.

Há quem faça suas próprias adaptações para disfarçar o pé plano, como enrolar fita crepe ao redor do metatarso ou amarrar as fitas da sapatilha em sua sola (conforme explica o manual da Gaynor Minden). Considero que nenhuma dessas interferências faça surgir algum efeito. O importante é trabalhar correta e continuamente em sala de aula e, se possível, fora dela.