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Muitas meninas começam a dançar ballet por indicação médica. Elas têm pés chatos. Esta era uma realidade bastante frequente nos anos 80. Hoje, não sei se tal indicação ainda existe. Mas quando comecei a dançar, a maior parte das coleguinhas de turma não estavam lá pela admiração ao ballet (meu caso), mas porque tinham pés chatos (também meu caso).

Como profissional de saúde, tenho lá minhas dúvidas sobre os benefícios do ballet clássico na correção do arco plantar baixo. Em todo caso, o problema começa quando a garotinha, que entrou no ballet por força do acaso e se apaixonou pela dança, inicia seu trabalho nas pontas. A professora de ballet e fisioterapeuta especialista em dança Lisa Howell diz que a pergunta mais comum é: “Tenho pés chatos. Posso usar sapatilha de ponta?”. A resposta pode ser sim ou não e tudo depende do tipo de pé chato que você tem.

Genericamente, há dois tipos de pé chato, também conhecido como pé plano. Algumas bailarinas (e pessoas em geral) possuem pés planos normais. É uma característica genética, segundo a qual o arco plantar é menos acentuado devido ao formato dos ossos dos pés. Não importa quão trabalhados sejam os pequenos músculos do pé, seu formato não muda significativamente com o passar dos anos. Se este é seu caso, o trabalho nas pontas é perfeitamente possível desde que todos os cuidados com o uso da sapatilha sejam tomados. Entretanto, pode ser que a bailarina não alcance uma aparência perfeita quando nas pontas, mas um trabalho seguro será perfeitamente possível. Nesta situação, os ligamentos devem ser fortes o bastante para estabilizar os pés e a bailarina deve ter boa consciência de sua musculatura.

Outros bailarinos terão pés com a aparência “chata” devido à presença de musculatura e ligamentos muito flexíveis e que não conferem o suporte necessário. Este tipo de pé pode ser trabalhado e ter uma excelente aparência nas pontas quando já estão bem fortes. Entretanto, a bailarina não deverá ser encorajada a subir nas pontas, caso a musculatura não esteja forte o bastante. Este tipo de pé apresenta um colo razoável na meia-ponta; mas nas pontas o colo aumenta, pois o peso do corpo empurra o calcanhar, fazendo o colo aumentar. Alongamentos específicos para este tipo de arco e controle da musculatura são essenciais para o início do trabalho nas pontas. Geralmente, bailarinas com tal mobilidade nos pés apresentam-na também em outros ligamentos e articulações do corpo. Elas podem desenvolver problemas nos joelhos e nas costas com o aumento da mobilidade e diminuição da estabilidade nessas articulações.

Especialistas acreditam que considerar apenas o formato do arco plantar não é adequado. O importante é atentar-se para a posição do calcanhar (osso calcâneo) e a posição relativa do osso seguinte (o talus). O tendão calcâneo deve permanecer alinhado, em sua vista posterior, mas apresentar uma ligeira curvatura ao nível do tornozelo. A bailarina deve ser capaz de manter uma boa posição do talus com os pés paralelos, em primeira posição, em fondu e durante sequencias de allegros e saltos, independente do formato de seus pés.

É essencial que cada bailarina aprenda os exercícios adequados para seu tipo de pé e esteja consciente das implicações do formato de seu pé ao progredir no trabalho de pontas.

Se você possui pé plano, isso não significa que não pode dançar ballet ou subir nas pontas. Tudo é permitido a todos desde que saibamos respeitar nossos limites. E lembre-se de que, se houver dor, o melhor é procurar um ortopedista, de preferência especializado em dança. Algumas das grandes bailarinas possuíam pés chatos, como é o caso de Alicia Markova e tantas outras.

Há quem faça suas próprias adaptações para disfarçar o pé plano, como enrolar fita crepe ao redor do metatarso ou amarrar as fitas da sapatilha em sua sola (conforme explica o manual da Gaynor Minden). Considero que nenhuma dessas interferências faça surgir algum efeito. O importante é trabalhar correta e continuamente em sala de aula e, se possível, fora dela.  

Todas nós sabemos o quanto devemos conviver com a dor. Sempre digo que toda bailarina é meio masoquista. Embora haja certa dose de escárnio em minha afirmação, é preciso simplesmente admitir o quinhão da dor pelo amor à nossa arte.

O post de hoje não é especificamente sobre sapatilhas de ponta e nem sobre a dor que ela causa. É sobre uma história de superação, que até mesmo bailarinas de renome estão sujeitas a sofrer.

Aproveitando a deixa de que escolhi, por mera coincidência, uma foto da Alina Cojocaru para o post sobre a Gaynor Minden, resolvi traduzir uma entrevista dela para o jornal britânico Telegraph.

Este pedacinho de sua história me tocou profundamente, pois sofro com uma tendinite no pé esquerdo desde os 15 anos. Sempre compramos a imagem da bailarina inatingível, praticamente uma semi-deusa encantando os olhares de muitos e quase sempre não nos damos conta de que elas são tão humanas quanto eu ou você. Então que a história de Alina sirva de inspiração pra todas nós.

Enjoy!

 

ENTREVISTA COM ALINA COJOCARU
A inigualável Alina Cojocaru fala sobre seu retorno ao ballet após uma lesão no pescoço
Por Mark Monahan
Publicada em 20 de outubro de 2009
Primeira bailarina do Royal Ballet, Alina Cojocaru: em cartaz, este mês, em A Bela Adormecida. Foto: Johan Persson

Primeira bailarina do Royal Ballet, Alina Cojocaru: em cartaz, este mês, em A Bela Adormecida. Foto: Johan Persson

Bailarinas são fortes. Elas aguentam qualquer lesão que afastaria a maioria de nós do trabalho por semanas ou nos empurraria pra cama, deixando-nos à base de analgésicos e agindo como vítimas legítimas de uma punição física, durante todo o dia, trancados em casa. Mas elas não só aguentam, elas ainda sorriem.

A romena Alina Cojocaru, primeira bailarina do Royal Ballet na maior parte da década e uma das maiores bailarinas da atualidade, mostrou essa coragem por cerca de dois anos e meio. Durante um ensaio, seu partner a levantou sem segurança e, no mesmo instante, ela sentiu um deslocamento no pescoço. “Mas”, ela diz após alguns ensaios para aquela estréia da temporada de A Bela Adormecida pelo Royal, “eu fiz o que qualquer um faria e continuei dançando por mais duas semanas. Todas fazemos isso”.

A pequena lesão se tornou seu pesadelo quando descobriu ser um prolapso do disco intervertebral, o que deixou Cojocaru seis meses de licença. Quando ela voltou, novo desastre. “Pensei que tudo estivesse bem”, disse a bailarina de 28 anos natural de Bucareste. “Você começa a trabalhar mais e cada vez mais, porque pensa que não precisa de descanso e sente que está tudo OK. Obviamente, não estava”.

Após muito negar, ela finalmente decidiu-se pela cirurgia. Sua performance em Junho do ano passado, na muito exigente seção “Diamonds” do ballet Jewels de Balanchine – numa atuação brilhante como o Covent Garden nunca viu – revelou o quanto a aposta tinha sido alta demais.

O retorno iminente de Cojocaru ao papel de Aurora, no conto de fadas assinado pela dupla Petipa/Tchaikovsky, é então de grande expectativa, não somente para ela própria. “O que se espera em Aurora é o mesmo que se espera em O Lago dos Cisnes”, ela diz. “A princípio, é exigido um estilo ou uma maneira própria para o papel e essa pressão é sentida por todas as bailarinas que já os interpretaram antes. Mas tento não pensar nesses termos. Quanto mais eu danço, mais aprecio a música, a história; porque é sim uma grande história, um drama. E agora que estou trabalhando nesse ballet novamente; a cada hora, a cada dia, é sempre diferente”.

É essa paixão em mergulhar na emoção de cada personagem que interpreta, de Aurora a Manon, de Manon a Giselle, que a destaca da simples e mera virtuosidade. Ela poderia facilmente contar apenas com sua combinação de força, “linha”, leveza e musicalidade, com sua habilidade quase mágica de preencher um palco imenso com movimento; mas ela se recusa. E mais: a atuação de Cojocaru (que também se prepara para uma montagem de Sphinx, coreografia moderna, de 1977, do americano Glen Tetley) é ainda tão impressionante quanto era antes de sua lesão e sua abordagem tem amadurecido consideravelmente como resultado dessa recuperação.

Não costumava ouvir ninguém”, ela admite, “quando as pessoas diziam para não trabalhar tanto, não me esforçar demais, tire férias, tire um tempo livre… Eu só pensava: não preciso de férias – por que devo parar se não quero isso? Mas você não faz idéia até o momento em que se machuca e então percebe: eu só ouvia o que queria. E acabei indo longe demais”.

Completamente restabelecida e vivendo com seu companheiro, o também primeiro bailarino do Royal Ballet, Johan Kobborg, ela seria capaz de repensar algumas atitudes de agora em diante?

Sim”, ela diz, “é verdade. Me divirto com isso agora. Antes de cada apresentação, digo a mim mesma: estou na coxia, com este figuro, esta maquiagem, e não estou apenas na platéia, machucada, somente assistindo, mas faço parte disso tudo novamente – não precisa ser perfeito, mas estou aqui agora e estou aqui para apreciar o momento”.

Logo no início da entrevista, questionei Cojocaru sobre o que ela considera como seu ponto forte enquanto bailarina – questão um tanto capciosa de minha parte. Bailarinos, sempre em suas rotinas exaustivas e imperdoáveis de ensaios, tendem a ser relutantes em celebrar seus próprios méritos. Ela me olhou com afronta: “Isso não é pergunta que se faça a um bailarino!

Justo – quais então seus pontos fracos? Talvez seja uma pergunta tão cruel quanto, uma vez que a mesma rotina mostra claramente qualquer propensão à vaidade, quando falhas não são admitidas.

Porém, no dia seguinte, recebi um email de Alina.

Continuei pensando em uma de suas perguntas”, ela fala, “e percebi que não a respondi adequadamente. Sinto que minha fraqueza é duvidar (não há lugar para dúvidas na dança, nem mesmo por uma fração de segundo!) e minha qualidade é ser honesta comigo e com as pessoas ao meu redor”.

Se ainda duvida do quão modesta seja esta resposta, vá e assista à pequena romena levitar nesta temporada do Covent Garden. Você não será decepcionado.

  • Alina Cojocaru está em cartaz em ‘A Bela Adormecida’, de 26 de outubro a 11 de novembro, e em “Sphinx”, nos dias 5, 13 e 17 de novembro; no Royal Opera House.

 

Não sei quanto a vocês, mas infelizmente ainda não posso pegar um vôo pá-pum pra Londres. Enquanto isso não acontece, podemos assistir Alina Cojocaru como Aurora no YouTube mesmo. E viva a internet!

Quem quiser acessar a entrevista original, clique aqui

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Se existe uma sapatilha de ponta diferente de todas as outras, esta é a Gaynor Minden. Não digo isso por experiência própria, pois ainda não tive a oportunidade de calçar uma. Digo isso porque, em questão de tecnologia, é uma sapatilha inovadora. Ela é feita com elastômero, enquanto as demais ainda possuem materiais rústicos, como papel, gesso, couro e outros.

Seu diferencial não diz respeito apenas à tecnologia. A GM é uma empresa que sabe vender seu produto como nenhum outro fabricante de sapatilhas de ponta. Das pesquisas científicas à contratação de bailarinas como garotas-propaganda, sua abordagem é sempre inovadora, tendo como objetivo fim o conforto e a prevenção de lesões. Não é à toa que 9 entre 10 bailarinas desejam uma GM.

Além disso, há uma série de outras vantagens. É uma sapatilha mais silenciosa, conferindo maior leveza à performance no palco. Não há modelos pré-fabricados, pois cada medida do pé é considerada (vide abaixo), com um total de 2.591 modelos individuais disponíveis. Possui maior durabilidade e é uma sapatilha visualmente mais delicada.

 

Como comprar uma Gaynor Minden

Comprar uma sapatilha de ponta pode ser o pesadelo inclusive para bailarinas profissionais. São inúmeras as tentativas até conseguirmos o ajuste perfeito. Tanto que raramente encorajo a aquisição por meio da internet. Além de aumentar o risco de lesões, ainda podemos jogar dinheiro fora. Por isso, sempre procure adquirir sua nova sapatilha à moda antiga. No Brasil, há dois representantes da GM: a Ponta Firme, com filiais em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Joinville; e a Mundo Dança, no Rio de Janeiro. Ambas oferecem a possibilidade de compra pela internet, mas isso só é aconselhável se você já sabe qual é a numeração correta de sua GM.

Caso você não faça a mínima idéia da correta numeração, a GM desenvolveu uma estratégia muito interessante para auxiliar estudantes e profissionais na escolha da sapatilha. Na seção de compras do site, clique no link “Let Us Fit You” e aparecerá um formulário minucioso com informações detalhadas sobre as medidas de seus pés, peso, altura, tempo de treinamento em pontas, utilização de protetores, problemas anatômicos, etc. O mais interessante e importante  é o preenchimento de um chart quadriculado, no qual você deverá fazer o desenho preciso do contorno dos seus pés, respeitando as instruções. Nele, todas as medidas das distâncias e circunferências mínimas de cada pé são calculadas, trazendo informações importantes para que os fitter specialists da GM possam indicar a melhor sapatilha para você. Há também a possibilidade de enviar fotos de cada um dos pés, mas isto é opcional. E não se esqueça de identificar o número de sua ordem de compra (que será enviado por email, após a finalização do processo) no formulário. Assim, eles identificam facilmente as informações das medidas dos pés com a compradora.

Meu pezinho de "Cinderela" :oP

Meu pezinho de "Cinderela" :P

Adquiri minha GM esta semana. E desde já, esclareço que preencher todo o formulário é muito trabalhoso. Para quem tem dificuldades com a língua, considero uma atividade ingrata. Além disso, todas as medidas devem ser dadas pelo sistema imperial. Mas o esforço vale à pena! Em menos de duas horas após a compra, a fitting specialist Molly Davidson já havia indicado a numeração da minha GM: 10N/4-121-22. Um número que deverei guardar para o resto da minha vivência como bailarina, caso não ocorram grandes modificações anatômicas nos meus pés.

A questão do envio de sua sapatilha também deve ser considerada. A entrega em território americano ocorre em até dois dias úteis, caso sua numeração esteja em estoque. Para entregas internacionais, não há estimativa de tempo. No meu caso, tive a sorte de um amigo que mora lá trazê-la em sua vinda para o Brasil ainda esta semana.

Embora ocorra certa demora para entregas internacionais, ainda assim considero vantajoso adquirir sua GM pelo site. Sua compra deverá custar aproximadamente R$ 200,00. Nas lojas, uma GM chega a passar dos R$ 400,00 devido à incisão de impostos e o lucro do distribuidor.

Mas poxa! 200 reais numa sapatilha é caríssimo!” Concordo em gênero, número e grau. Mas quem comprou garante que o investimento vale à pena.

 

Como utilizar sua Gaynor Minden

Devido a toda essa estrutura e tecnologia, a sapatilha GM só poderia ser uma das mais caras do mercado. Mas o custo-benefício compensa. Sua durabilidade é muito maior que a das demais sapatilhas, exatamente porque é feita com elastômero.

Duas colegas de turma me contaram que suas GMs já vão completar dois anos de uso. Recentemente, comprei dois modelos super-reforçados Nikiya da Cecília Kerche Só Dança que não duraram dois meses cada. Cada par custou cerca de 80 reais.

Uma sapatilha GM não deve ser quebrada e nem amolecida. Ao contrário, ela poderá ser moldada aquecendo-se o elastômero com secador. Já está sentindo a sapatilha “no chão”? Nada de jogá-la no lixo! Secador nela pra moldá-la e endurecê-la novamente. 

Há várias maneiras de incrementar a utilização de sua GM. Todas elas podem ser encontradas no Manual para Ajuste da Sapatilha de Ponta, uma tradução que fiz do manual deles especialmente para minhas leitoras. Ele também poderá ser encontrado em nossa nova seção Downloads. Vale lembrar que é uma tradução não autorizada somente para fins de consulta. Além disso, alguns termos não podem ser traduzidos por uma questão de patentes.

Por falar nisso, a GM renovou recentemente a patente desta sapatilha. Esse é o principal motivo pelo qual os demais fabricantes não podem utilizar a mesma tecnologia em suas marcas.

Quem decidir comprar uma GM pelo site e tiver muita dificuldade ou dúvidas sobre o formulário, podem mandar um email para pontaperfeita@gmail.com. Terei o maior prazer em ajudá-las! E não esqueçam de colocar no carrinho uns bibelôs bailarinísticos, como pôsteres e imãs de geladeira. São de graça!

Quando minha GM chegar, volto pra contar como foi a experiência.

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Sejam bem-vindas em nossa nova casa!

Todas sabem que a proposta do Ponta Perfeita é criar um ambiente de conhecimento e discussões a respeito da utilização das sapatilhas de ponta. Sendo assim, nada melhor do que ter um espaço apto a receber todo o tipo de informação e material possível e o WordPress mostrou-se capaz de fazê-lo.

A primeira novidade é a seção Downloads. Lá disponibilizarei todo o material citado nos posts. Estudos científicos, entrevistas, manuais. Tudo será organizado naquele espaço para que qualquer um tenha acesso.

A outra novidade é que darei início à série “Melhores Marcas”, na qual escolherei um fabricante em especial e trarei todas as informações disponíveis a respeito. Para inaugurar nossa série, falarei nada menos que da marca mais cobiçada por todas as bailarinas: a Gaynor Minden. O post estará disponível ainda nesta sexta-feira.

Gostaria especialmente de agradecer à Cássia, que foi extremamente solícita e paciente para com as minhas dúvidas a respeito da utilização do WordPress.

Gostaria de agradecer também a todas as pessoas que leram, comentaram e dividiram suas experiências lá no Blogger e convidá-las a continuar fazendo o mesmo por aqui.

Um beijão para todas!

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Homens podem dançar nas pontas? Esta é uma questão bastante polêmica no mundo do ballet clássico. Alguns acreditam que o treino nas pontas melhora a flexibilidade e a força dos pés. Outros desejam ensinar técnica para estudantes e pretendem apenas viver a sensação para transmitir as dificuldades de maneira mais didática. Qualquer que seja o objetivo, é sempre bom lembrar que a técnica de pontas faz parte de todas as metodologias da dança clássica, não importa se para homens ou para mulheres.

A maior vantagem do treino de pontas para homens é que eles de fato alcançam melhor alongamento, força e balances mais perfeitos, os quais não alcançariam somente com a técnica da meia ponta. Tanto que algumas escolas, como o Bolshoi por exemplo, exigem o treinamento para homens. A outra vantagem é que, experimentando a sensação, os bailarinos conseguem entender melhor as dificuldades e limitações de suas partners e os coreógrafos também se tornam sensíveis a elas.

A desvantagem é que os bailarinos tornam-se mais susceptíveis a lesões. Isso porque possuem pés maiores, mais largos, mais rígidos e musculatura mais pesada sobre os tornozelos. E se já é difícil encontrar a sapatilha ideal para meninas, imaginem para homens! A caixa deve ser mais larga, a palmilha mais reforçada e o tamanho bem maior. Recentemente, um colega de classe encontrou um modelo de uma Cecília Kerche Só Dança de número 42. Sobrou na loja e ele acabou conseguindo um preço bem em conta. Mas a situação é rara. Tanto que a Sansha desenvolveu um modelo mais largo, com numeração até 16 e na cor preta, especialmente para bailarinos. O modelo é o Recital 202.

O coreógrafo Anton Wilson, ex-bailarino do Les Ballets Trockadero de Monte Carlo, iniciou seus estudos nas pontas quando ainda era aspirante a bailarino na Towson State University. Ele conta que enfrentou uma série de problemas, mas que o maior deles era perder as unhas dos dedões. Suas unhas ficavam roxas e doíam tanto que ele não conseguia usar sapatos normais e nem mesmo suportar o leve peso de seus lençóis. Por causa disso, chegou a pensar em desistir da carreira. Por outro lado, passou a compreender e admirar o trabalho da bailarina e ainda descobriu novos músculos trabalhados nas panturrilhas e coxas.

Há ainda quem diga que o alongamento e a musculatura adquiridos não justificam o risco de lesões e que aparêcia das pontas em homens não é tão delicada quanto a das mulheres. Independente da opinião, as performances deles nas pontas são impressionantes. Bailarinos do Les Ballets Trockadero de Monte Carlo e do Les Ballets Grandiva são bastante performáticos e todos possuem formação clássica e também como comediantes. Por que não encarar com humor e parodiar o rígido mundo do ballet? Particularmente, acho sensacional!

Logo abaixo, vocês podem assistir a duas apresentações. A primeira é uma paródia muito engraçada d’A Morte do Cisne pelos Trocks e a segunda uma performance incompleta de Rubis de Balanchine. Reparem na técnica de pontas. Em nada perdem para a técnica de mulheres!

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No post anterior, expliquei sobre o formato dos pés e como ele influencia na escolha da sapatilha. Hoje, trago novos probleminhas anatômicos e como podemos solucioná-los para que a escolha seja a mais correta possível.

Joanetes – é um problema hereditário que pode piorar devido à técnica e ajuste inapropriados das pontas. Se não houver dor, não há razão para preocupar-se com o joanete. Se houver dor, responda à seguintes perguntas: As sapatilhas estão muito largas? As sapatilhas estão pequenas demais? As sapatilhas estão muito gastas? Está utilizando as ponteiras adequadas? Há pronação dos pés? Há esforço excessivo pra girar? Existe espaço entre o dedão e o segundo dedo do pé? A dor causada pelo joanete pode ser aliviada envolvendo a região do metatarso com esparadrapo, que deve estar firme e oferecer suporte, mas nunca apertado demais. O espaço entre o dedão e o segundo dedo pode ser resolvido com um separador. Porém, na maioria das vezes, o problema é causado pelo mau ajuste da sapatilha.

Arco plantar caídos – Ocorre quando o arco plantar apóia-se inteiramente no chão, conferindo uma aparência torta da sapatilha de ponta. Acontece no caso em que o pé chato é bem acentuado. Novamente, envolver a região do metatarso com esparadrapo pode resolver o problema. Se houver pronação e dor nos joelhos, consulte um ortopedista.

Compressão do metatarso – A maioria das bailarinas apresenta uma compleição óssea bem estreita, o que obviamente estende-se aos pés, cujo formato é fino e comprido. Este tipo de pé é bastante compressível na região do metatarso. Isso significa que, ao aplicar uma pressão nas partes laterais do pé, os ossos da região do metatarso movimentam-se facilmente, pois não há grande quantidade de cartilagem entre eles. Geralmente, estes pés são do tipo Grego ou Egípcio. Em posição plantar, este tipo de pé é relativamente chato, pois os ossos da região tendem a se separar facilmente. Mas nas pontas, os ossos do pé são comprimidos um sobre o outro. Assim, a sapatilha que estiver larga em posição plantar fica ainda mais larga quando nas pontas, fazendo com que o pé deslize dentro da sapatilha, aumentando a pressão sobre os maiores dedos (geralmente, o primeiro ou segundo). Para resolver o problema, utilize a maior quantidade possível de ajustadores disponíveis no mercado.

Pé grego – Quando o segundo dedo é muito maior do que o dedão, é comum a bailarina sentir a pressão maior do que o normal, quando nas pontas. O ideal é consultar um ortopedista antes de iniciar as atividades nas pontas. Aqui, também é necessário utilizar um ajustador que alinhe a altura dos dois dedos, como o Cool Blue Crescent da Gaynor Minden. O protetor é posicionado abaixo do dedão e do terceiro dedo do pé, criando um espaço para o alinhamento do segundo dedo e diminuindo a pressão sobre o mesmo.

Hiperflexão – Acontece quando a bailarina possui um pé bem arqueado e flexível demais para se manter sobre as pontas. Gáspeas mais altas, elásticos reforçados e palmilhas mais duras são bastante recomendados para esse tipo de problema.

Inchaços – O problema de edemas em membros inferiores é bastante comum em mulheres. Com as bailarinas, não é diferente. Ao tirar as sapatilhas, os pés permanecem naquele formato tamanha é a extensão do edema. Em casos extremos, é necessário o uso de duas sapatilhas com larguras de caixa distintas. A utilização de ajustadores e meias reforçadas, que possam ser colocados e tirados, pode ser bastante útil.

Pés com tamanhos diferentes – O ideal é comprar uma sapatilha para cada pé. Mas esta realidade é utópica diante da disponibilidade do mercado. Neste caso, ajuste a sapatilha no maior pé e utilize os ajustadores para o menor.

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Durante a escolha da sapatilha de ponta, não basta saber de cor o nome de todas as marcas e modelos disponíveis no mercado, bem como todas as etapas a seguir no momento do ajuste. Tornar-se uma expert da tecnologia de sapatilhas em nada ajuda se a bailarina não conhecer seu próprio corpo e suas limitações (tanto físicas, como psicológicas).

Ainda tratarei das limitações psicológicas que uma bailarina enfrenta devido ao uso das sapatilhas de ponta. Mas hoje quero tratar de uma limitação física muito importante: o formato dos pés.

Pode-se classificar os formatos dos pés em três tipos distintos: Grego, Egípcio e Quadrado. Enumere os dedos dos pés, do dedão ao dedinho, de 1 a 5. Para cada formato, existem as seguintes fórmulas:

a.Pé Grego – 1<2>3>4>5;

b.Pé Egípcio – 1>2>3>4>5;

c.Pé Quadrado – 1=2>3>4>5.

Pé Grego: este tipo de pé possui o segundo dedo mais comprido que os demais.

Pé Egípcio: o dedão é o maior que todos os demais dedos, que diminuem de tamanho gradualmente.

Pé Quadrado: Este tipo de pé apresenta, pelo menos, três dedos do mesmo tamanho.

Não entendeu? A figura ajuda:

 

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De forma bastante grosseira, pode-se considerar que o pé Egípcio possui a planta mais larga e o Grego a planta mais estreita. Entretanto, há pés largos ou estreitos para ambos os tipos Egípcio ou Grego.

O quadro abaixo dá uma excelente sugestão para as marcas mais adequadas aos formatos dos pés. Mas lembre-se de que é apenas uma sugestão.

O ajuste de toda sapatilha é individual e deve ser acompanhado, nas primeiras vezes, por um especialista ou por seu professor.

Este é apenas um guia prático para a orientação da escolha da sapatilha de acordo com as características anatômicas dos pés. Antes de verificar o quadro, determine o formato do seu pé, fazendo um contorno dele numa folha de papel e comparando o desenho com a figura acima.

ATENÇÃO: Leia todas as dicas abaixo do quadro antes de realizar a escolha.

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Eixo vertical = Formato da caixa da sapatilha visto de lado (Quanto mais acima no eixo vertical, mais larga é a caixa. Quando mais abaixo no eixo, mais estreita é a caixa)

Eixo horizontal = Formato da caixa visto de cima (O lado esquerdo é mais estreito e o direito é mais largo)

* As informações do quadro têm propósitos apenas sugestivos. O quadro não garante a precisão absoluta do ajuste da sapatilha. Embora seja considerado apenas o aspecto da caixa, lembre-se que os demais itens da morfologia da sapatilha (altura da gáspea, do calcanhar, etc) também são importantes. Em geral, quanto menor o número da sapatilha, maior é a aparência do tamanho da plataforma e da caixa.

* O quadro não considera as diferentes larguras das caixas em um mesmo modelo de sapatilha (Geralmente, são as letrinhas A, B, C, etc impressas na sola da sapatilha)

* O quadro é o resultado de um estudo realizado pela Bordeaux. Portanto, é apenas um comparativo do tamanho das caixas e não é baseado em minha própria percepção ao calçá-las. Por esta mesma razão, modelos de sapatilhas brasileiras não foram incluídos.

 

DICAS E SUGESTÕES

Se você tem PÉ EGÍPCIO:

* Se o dedão e o segundo dedo, ou os três primeiros dedos têm aproximadamente o mesmo tamanho

É recomendada caixa de largura média a grande.

Se o arco plantar é alto – zona amarela clara a verde

Se o arco plantar é baixo (pé chato) – zona rosa clara a azul

* Se o dedão é maior que os demais dedos

Este tipo de pé é provavelmente o que apresenta menor simetria com relação ao formato das caixas. Se a caixa for muito estreita, ela não acomodará o dedão. E se for muito larga, haverá sobra de espaço para os demais dedos, exceto o dedão, dificultando a técnica e aumentando o desconforto. É possível que você escolha sapatilhas de caixas mais largas. Entretanto, considerando o excesso de peso em cima do dedão, a escolha pode mudar para uma caixa de largura média.

O importante é acomodar os demais dedos com os ajustadores e ponteiras, alinhando a altura dos mesmos e distribuindo o peso em todos os dedos. Lembre-se que sapatilhas muito largas tendem a dirigir todo o peso do corpo para o dedão.

Se você tem PÉ GREGO:

*Se apenas o segundo dedo é maior

Caixas de largura média a estreita são recomendadas

Se o arco plantar é alto – zona amarela

Se o arco plantar é baixo (pé chato) – zona rosa

Para cada zona, escolha a sapatilha mais larga se o seu pé é largo. E a sapatilha mais estreita se seu pé é estreito. Mas cuidado para não escolher uma caixa muito larga, mesmo que você tenha pés largos. Isso pode aumentar o peso sobre o segundo dedo e causar dor.

Utilize ponteiras de gel e ajustadores para acomodar os demais dedos. Se seu pé é muito estreito, utilize ajustadores também nas laterais e nos calcanhares.

*Se o segundo e o terceiro dedos possuem mais ou menos o mesmo tamanho

Caixas de largura média a larga são recomendadas.

Se o arco plantar é alto – zona amarela clara a verde

Se o arco plantar é baixo (pé chato) – zona rosa a azul

Pés gregos com dedos de tamanhos equivalentes não se adaptam muito bem em caixas estreitas, oferecendo uma sensação de aperto nos dedos.

Se você tem o PÉ QUADRADO:

* Se o arco plantar é alto

Com relação à largura da caixa, recomendam-se as sapatilhas da zona verde

Se o pé é largo – modelos mais largos da zona verde

Se o pé é estreito – modelos mais largos da zona verde

* Se o arco plantar é baixo (pé chato)

Com relação à largura da caixa, recomendam-se as sapatilhas da zona azul

Se o pé é largo – modelos mais largos da zona azul

Se o pé é estreito – modelos mais largos da zona azul

Caixas muito estreitas poderão causar dor no dedão e no dedinho, mesmo que a largura do seu pé seja estreita.

E mesmo que as larguras sejam as mesmas…

Caixas de mesmo tamanho e mesma largura podem ainda ser divididas em: “arco alto em pé estreito” e “arco baixo em pé largo”.

Se o arco plantar é alto – zona amarela ou verde

Se o arco plantar é baixo – zona rosa ou azul

arcoO arco plantar é uma medida em Ortopedia dada pela impressão plantar. Basicamente, é como de define se a pessoa tem pé plano (pé chato), pé normal ou pé cavo. Há diversos problemas anatômicos relacionados com o arco plantar. Mas para nós, basta ter uma ligeira noção de como é o formato do arco de seu pé ou consultar seu ortopedista.

Apesar de todas as dicas, lembre-se de que o uso das sapatilhas de ponta, por melhor que seja o ajuste, não é confortável. É necessária uma grande dose de paixão e tolerância para encararmos o desafio. Mas somos bailarinas e para nós tudo é possível.

E então? Conseguiram utilizar o quadro? Já determinaram suas marcas de sapatilha? Se houver dúvidas sobre a utilização do quadro ou sobre o ajuste das sapatilhas e também se quiserem indicações de marcas, escrevam (pontaperfeita@gmail.com).

 

Referências:

Propedêutica dos Pés” – Dr. Caio Nery (Depto. de Ortopedia e Traumatologia da UNIFESP)

Pointe Shoes Fitting Guidelines” – Gaynor Minden (rev 3/05): New York

Pointe Shoe Quick Fit Chart” – Bordeaux (2002-2008)

adulta

No post anterior, falei sobre a idade ideal para iniciar a técnica de pontas. E assim como expliquei que não há uma idade certa enquanto jovem bailarina, o mesmo se aplica para bailarinas iniciantes, porém adultas. Ou seja, não há qualquer limite de idade. O início do treinamento para adultos depende da quantidade de horas de estudo por semana, condição física, força muscular e dedicação da bailarina em idade avançada. E aqui, entende-se idade avançada como acima de 25 anos

Janice Barringer e Sarah Schlesinger, no livro The Pointe Book – Shoes, Training & Technique, abordam o assunto de maneira bem simples. De acordo com as autoras, o treinamento de pontas para bailarinas adultas varia bastante de uma escola para outra. Não é nem mesmo uma questão de método (Vaganova, Royal, Balanchine, etc), mas sim da percepção da própria bailarina e seu professor. Elas ainda descrevem estas bailarinas como “very brave ladies who have either had the dream of wanting to dance on pointe all their lives, or have danced as children and wanted to experience the feeling again” (moças muito corajosas que sempre tiveram o sonho de dançar nas pontas ou já dançaram mais cedo e querem viver a experiência novamente).

Geralmente, entende-se que os requisitos para uma adulta iniciar o treinamento de pontas são dois: 1) fazer, no mínimo, três aulas por semana, sendo uma imediatamente antes da aula de técnica de pontas; e 2) estar absolutamente segura de sua decisão. O primeiro requisito varia de acordo com a dedicação da aluna e a habilidade que ela demonstra nas aulas. No meu caso, passei mais de 10 anos sem calçar uma sapatilha de pontas e, como ainda tenho tendinite, minha professora ficou bastante receosa com minha decisão. Faço três aulas por semana e escolhi as aulas de sábado para o treinamento nas pontas. Embora não seja uma aula adequada de técnica de pontas (pois meu trabalho não me dá possibilidade de freqüentá-la), os resultados têm sido bem satisfatórios. Como aos sábados tenho bastante tempo livre, chego mais cedo na escola e aqueço bem toda a musculatura antes da aula, um cuidado que nunca tive quando era mais nova.

No Brasil, devido à padronização do ensino nas escolas, adota-se o mínimo de 2 anos de técnica clássica para adultos iniciantes antes de começar o treinamento nas pontas. Entretanto, é preciso que a bailarina adulta, assim como a adolescente, sinta-se segura a fim de evitar lesões definitivas.

Aliás, a questão das lesões é bem pontuada por Barringer e Schlesinger. Segundo elas, muitas bailarinas adultas acreditam que não sofrerão lesões por já apresentarem estrutura óssea e muscular completamente formada. É preciso saber que os cuidados com lesões devem ser exatamente os mesmos daqueles tomados com crianças e adolescentes. Isso porque o trabalho de pontas em bailarinas adultas é mais árduo, pois há mais peso sobre os tornozelos e maior noção de medo e perigo.

Os exercícios de técnica são exatamente os mesmos para adultos e adolescentes. E desde que bailarinas adultas aprendam a técnica correta e adquiram a habilidade com treinamento e dedicação, é perfeitamente viável que ela se torne proficiente nas pontas mesmo tendo iniciado seus estudos em idade avançada. Aliás, como sempre digo, a idade é uma grande conselheira. Hoje sinto-me melhor bailarina que há 10 anos. A idade me proporcionou maior consciência corporal, responsabilidade e dedicação, características muitas vezes ausentes em crianças e adolescentes.

E vocês, meninas? Como foram suas experiências com as pontas após os 25 anos? Vamos compartilhar?

 

NOTA: O Ponta Perfeita está tendo muitos acessos de Portugal. Gostaria de agradecer as visitas das bailarinas portuguesas e dizer que, embora eu fale bastante sobre a realidade do ensino do ballet clássico no Brasil, gostaria também de saber mais sobre ele em Portugal. Portanto, sintam-se à vontade para fazer comentários e sugestões, ok? Será motivo de muita alegria para mim.

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Um dos momentos mais especiais e de maior excitação na vida de uma aspirante a bailarina é calçar e dançar lindamente com sua primeira sapatilha de ponta. Porém, este momento mágico pode ser tornar uma grande frustração se não ocorrer no momento certo. Além disso, diversos fatores devem ser considerados. Há uma infinidade deles, mas citarei os mais importantes, os principais que devem servir como guia para pais, professores e para a pequena bailarina.

 

Idade

Qual é a idade correta para subir nas pontas?

Este simples pergunta é bastante traiçoeira para com os professores. Não há resposta simples, direta e adequada. Ortopedistas e mestres concordam que há uma combinação de variáveis que precisam ser analisadas antes de fazer um julgamento: idade, anatomia, desenvolvimento ósseo, força, intervalo dos treinos, peso corporal e perfil comportamental da iniciante.

Segundo o Dr. Justin Howse, ex-ortopedista do Royal Ballet School, em seu livro Dance Technique and Injury Prevention, afirma que, durante muitos anos, considerou-se a idade de 12 anos adequada ao início das pontas. Porém, ele próprio acredita que não há uma idade específica. “O único fator importante é o estágio de desenvolvimento da aluna e o dogma a respeito de sua idade não diz absolutamente nada sobre sua maturidade”.

Howse pontua inclusive que não há qualquer desvantagem em iniciar a técnica de pontas tardiamente, ao passo que sua antecipação pode ser potencialmente perigosa. Eu mesma adquiri uma tendinite crônica, que foi um dos fatores responsáveis para que eu parasse de dançar por mais de 10 anos, devido à antecipação da técnica (tinha apenas 9 anos quando comecei a usar as pontas).

A bailarina que aguarda o desenvolvimento de seu corpo e de suas habilidades corre menor risco de lesões, atinge a técnica correta com maior facilidade e apresenta progressos mais rapidamente. O doutor lembra ainda que a maioria das grandes bailarinas não possuíam pés fortes o suficiente para iniciar o trabalho de pontas antes mesmo da adolescência e isso em nada prejudicou suas brilhantes carreiras.

 

Custo

Assistir a filhinha dançando ballet aos 4 aninhos é o deleite de muitos pais. As apresentações de baby class são recheadas de fofura e espontaneidade. Mas e quando aquela atividade lúdica se torna uma paixão? Aqueles mesmos pais estão economicamente preparados para a formação da filha? A formação em ballet clássico é muito cara, especialmente devido ao custo das sapatilhas de ponta.

No Brasil, há poucos fabricantes (Só Dança Cecília Kerche, Balletto e Millenium são os mais conhecidos) e as sapatilhas importadas são extremamente caras e de aquisição complicada. Portanto, é comum que as bailarinas brasileiras sejam forçadas a utilizar sapatilhas inadequadas e prolongar seu tempo de uso, mesmo após considerá-las inadequadas. Isso aumenta vertiginosamente o risco de lesões.

A durabilidade de uma sapatilha de ponta varia bastante dentre marcas, modelos e suas características. Uma análise comparativa entre cinco marcas diferentes (Capezio, Gaynor Minden, Freed, Grishko e Leo’s) foi publicada pelo The American Journal of Sports and Medicine. De acordo com os resultados, nem sempre a sapatilha de maior durabilidade é aquela que confere o melhor conforto. E considerando que uma bailarina profissional utiliza até 65 pares de sapatilhas de ponta por mês, convém colocar no papel qual será o custo necessário para bancar a atividade.

Por isso, é importante notar que, se os pais não apresentam condições financeiras para proporcionar conforto e segurança na utilização das pontas, é melhor convencer a menina a permanecer na meia-ponta do que aumentar o risco de lesões definitivas.

 

Sapatilha rígida ou maleável?

Este é um tópico de bastante controvérsia. Há duas linhas a serem seguidas.

Alguns professores recomendam que as primeiras sapatilhas sejam bem rígidas; e gradualmente a iniciante passe a usar modelos mais maleáveis. Tais professores acreditam que a sapatilha rígida permite o fortalecimento dos pés à medida que a bailarina trabalha a técnica. Esta é uma opção muito bem vinda pelos pais, pois caixas de maior dureza também apresentam maior durabilidade.

Já outros professores sugerem que a primeira sapatilha seja mais maleável, pois a bailarina depende da força de seus pés e não da dureza da sapatilha. De acordo com eles, sapatilhas mais maleáveis forçam o pé a alcançar sua performance adequada, pois uma vez que a adaptação já foi feita com sapatilhas mais duras, é quase impossível uma bailarina utilizar modelos mais maleáveis, pois isto significa aprender uma nova técnica de dançar nas pontas.

Em geral, bailarinas profissionais utilizam sapatilhas de dureza superior. Mas após atingir o nível profissional, o que determina a dureza da sapatilha a ser utilizada é a natureza da coreografia.

 

Competência dos mestres e professores

O professor de ballet também é responsável pelo seu sucesso do treinamento nas pontas. Não basta que o professor seja pós-graduado em Dança ou Educação Física ou qualquer outra atividade relacionada à prática do ballet clássico. Antes de mais nada, o professor necessita interpretar todo o processo de desenvolvimento das pontas e saber comunicá-lo aos pais da aluna.

O conhecimento do professor a respeito da anatomia do pé da aluna, sua força e potencial para desenvolvimento possibilita a sugestão de uma marca específica, estilo e tamanho prováveis da sapatilha, servindo como a primeira base para a pesquisa da pequena bailarina. Quanto mais detalhes o professor souber, maior é a probabilidade da escolha correta.

Além da escolha correta da primeira sapatilha, um bom professor é capaz de identificar padrões que podem levar ao desenvolvimento de lesões. Seja por excesso de esforço de uma aluna muito dedicada, pela execução incorreta dos exercícios ou percepção de atitudes indesejadas (como a falta de aquecimento antes da aula). Um bom professor é aquele que possui conhecimento aliado à atenção e facilidade de comunicação.

 

Conhecimento

Assim como em qualquer profissão, conhecimento é a chave do sucesso. Um engenheiro não constrói pontes sem conhecer um paquímetro. E uma bailarina não encanta se não souber as características de sua sapatilha.

Na escola russa, os bailarinos são encorajados a conhecer o processo de fabricação das sapatilhas de ponta. As escolas americanas sempre recebem visitas de shoe fitters (profissionais que auxiliam na escolha da sapatilha) e representantes dos principais fabricantes do país. Algumas escolas ainda levam suas alunas para ver de perto o processo de fabricação. Isso possibilita um melhor entendimento a respeito da ferramenta, facilitando a comunicação e a antecipação dos problemas tão logo eles apareçam.

No Brasil, esta não é uma realidade. Não há profissionais capacitados, não há curiosidade por parte das alunas, alguns professores nem sequer têm formação necessária para fazer um bom julgamento. Por isso, gerar conhecimento sobre sapatilhas de pontas e criar um ambiente de discussões são as propostas do Ponta Perfeita. Acredito que estes são os primeiros passos para criarmos uma cultura saudável em torno do ballet clássico. Imaginem quantos talentos já não perdemos por falta de conhecimento?

 

Postura da bailarina

Mesmo após verificar que a pequena bailarina já está madura o suficiente para iniciar suas atividades na ponta, cabe somente a ela dizer se está pronta ou não. Aquela sensação de nunca estar preparada pode acontecer eventualmente. Neste momento, não é bom que pais ou professores a pressionem. Antes de mais nada, todos devem zelar pela segurança e pela saúde da pequena bailarina.

A postura da bailarina não consiste apenas em decidir ou não se está preparada para subir nas pontas. É necessário que ela ainda esteja apaixonadamente interessada no ballet clássico à idade de 13-14 anos. E além disso, esteja consciente de que o trabalho é árduo, exige dedicação, os resultados aparecem lentamente e que certamente haverá dor e desconforto. 

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Dançar nas pontas dos pés é muito mais do que o alcance da técnica, muito mais do que virtuosismo propriamente dito. Em muitos ballets de repertório, a ponta é um elemento crucial da dramaticidade, essencial para contar uma história.

Já disse antes que os ballets românticos são repletos de personagens sobrenaturais que aparecem para flutuar numa leveza etérea e delicada. Os papéis mais importantes da bailarina nesses ballet incluem as fadas (Fada Açucarada em O Quebra-Nozes, a Fada Lilás em A Bela Adormecida, Titânia em Sonhos de Uma Noite de Verão), alguns fantasmas (as Willis de Giselle, as Sombras de La Bayadére), pássaros encantados (O Lago dos Cisnes e Les Sylphides) e ninfas (Apollo).

Em todos esses papéis, a técnica de pontas conversa com a leveza sobrenatural tornando a personagem mais convincente. Fadas e sílfides utilizam as pontas para percorrer e sobrevoar o palco (notem a quantidade de bourrés existentes nas coreografias). A temperamental Odile hipnotiza o Príncipe Siegfried ao girar os 32 fouettés nas pontas. A doce Princesa Aurora permanece durante bastante tempo em balances nas pontas no Adágio da Rosa. Na dança clássica, assim como em qualquer arte, os instrumentos são reinventados e reutilizados de formas diversas.

Se a sapatilha de ponta foi primeiramente utilizada com o propósito da leveza dos ballets românticos, mais tarde elas se tornam objetos de poder em repertórios mais ousados. Mulheres de personalidade marcante e nada etéreas, como Carmen, Kitri (Don Quixote) e Esmeralda utilizam giros, balances e developpés como formas de ameaça e imposição de suas vontades. A seqüência de piruetas em quinta posição no desafio de Kitri ou a famosa variação de Esmeralda em que a mesma toca o pandeiro com os pés numa seqüência de lindos frappés altos em relevés não teriam o mesmo apelo se a bailarina não estivesse nas pontas.

Com a criação do ballet moderno, bailarinos de renome como Isadora Duncan e Martha Graham negaram o uso das pontas. Segundo elas, a performance etérea não é equivalente à natureza humana. Por isso, muitas vezes dançavam descalças, o que escandalizou o público da época.

Porém, nas palavras do próprio George Balanchine, se as pontas não existissem, possivelmente ele mesmo não se tornaria um coreógrafo. E mesmo revolucionando a linguagem a dança clássica e sendo o criador do neo-clássico, Balanchine não abriu mão do uso das pontas em vários de seus ballets.

Erroneamente, alguns citam o uso ou não das sapatilhas de ponta como a principal diferença entre o ballet clássico e o contemporâneo, diversas montagens contemporâneas utilizam as pontas. É o que se pode observar no pas de trois Redline/Redmilk do coreógrafo Christopher Campbell, em que uma bailarina utiliza pontas e a outra não, além das demais caraterísticas do contempâneo, como o uso do chão como elemento cênico e da ausência de música até a metade da performance.

Portanto, é bom saber que a linguagem e os propósitos mudam com o passar do tempo. Mas aquilo que nos torna bailarinas e diferente dos demais artistas é exatamente nosso instrumento mais apaixonante: as pontas.

 

Relação de fotos:

Fada Açucarada: Sharon Teague (Houston’s Ballet)

Fada Lilás: Veronika Part (Royal Ballet)

Titânia: Teresa Reichlen e Justin Peck (New York City Ballet)

Willis (Giselle): Corpo de Baile do Ballet Nacional de Cuba

Sombras (La Bayadère): Corpo de Baile do Mariisky Ballet

O Lago dos Cisnes: China Ballet Corps

Pássaro de Fogo: Patricia Barker (Pacific Northwest Ballet)

Les Sylphides: Corpo de Baile do Australian Ballet

Apollo: Fabrice Calmels, Valerie Robin, April Daly e Kathleen Thielhelm (Joffrey Ballet of Chicago)

Odile: Uliana Lopatkina (Mariisky Ballet)

Príncipe Siegfried: Andrei Uvarov (Ballet Bolshoi)

Princesa Aurora: Alina Cojocaru (The Royal Ballet)

Carmen: Alessandra Ferri e Julio Bocca (Amerian Ballet Theatre)

Kitri: Olesia Novikova (Mariisky Ballet)

Esmeralda: Maria Kochetkova (San Francisco Ballet)

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